Monthly Archive for July, 2010

Copa do Mundo 2014

Já gerando polêmica, a Copa do Mundo de 2014 que será no Brasil nasce em clima quente, pelo menos no mundo do design. Após o lançamento da marca que irá representar o evento internacional os profissionais de design gráfico, e também muitos leigos no assunto, ficaram loucos e fizeram borbulhar comentários no Twitter. Um dos pontos de vista mais diretos e que na minha opinião merece respeito é o de Alexandre Wollner, designer gráfico super respeitado e com quase 60 anos de mercado, onde ele diz que a marca da Copa de 2014 “é uma porcaria!”.

Em entrevista para a Terra Magazine ele dá o seu parecer:

Terra Magazine - O que você achou do logotipo da Copa 2014?
Alexandre Wollner - É uma porcaria. Uma porcaria e uma coisa muito antiética. E as pessoas que estão reclamando participam também de coisas antiéticas. Só porque não participaram estão brigando com todo mundo. Aqui no Brasil não tem condição nenhuma de, profissionalmente, falar o que é design. Tudo isso são oportunistas, é publicidade!

Você está falando da crítica sobre quem foram os jurados que escolheram o logo?
Você imagina o júri que escolheu… Que é isso? Não tem o que se comentar. Já houve concursos semelhantes que muitos profissionais participaram com um prêmio assim de R$ 15 mil. Eu tenho certeza que esse prêmio aqui foi uma barra de chocolate suíço. É uma coisa só pra aparecer, uma coisa de prestígio.

Muita gente criticou. O logo ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter porque muita gente não gostou mesmo. Por que você acha que teve essa rejeição?
Não se pode gostar de uma coisa dessa. Você pode ver. Olha bem para o desenho: é uma cara com a mão no rosto dizendo “que vergonha”. Sabe quando você fala “que vergonha” e põe a mão no rosto? O desenho foi aleatório.

Falando de design, o que é que um logotipo tem que representar? Como é a pesquisa para criar um logo como esse?
Tem que respeitar a cultura do país que está representando. Se não respeitar, não tem significado nenhum. A cultura do país tem que ser feita pelo país, pelos profissionais do país. Pode ser que tenha sido feito por um brasileiro, mas não foi feito por especialistas, gente que faz a representação visual do país.

Você gostou do logotipo desta Copa, da África?
Também foi ruim. Não sobrevive, fica efêmera. Acabou a Copa e você nem vai lembrar mais. Uma simbologia não fica só no sinal, ela fica em tudo: na comunicação, nos equipamentos que você produz. Nessa Copa da África, os edifícios dos estádios são maravilhosos, mas você não vê nenhum sinal em volta. Fica uma coisa parada.

Então que outras criações você acha interessantes?
A única Olimpíada que deu resultado e que mudou a nossa cultura foi a Olimpíada de Munique de 1972, que resultou nos pictogramas que hoje são usados (em 72, ficaram famosos os desenhos que representavam a silhueta de vários atletas praticando esportes olímpicos). Em todo lugar, em todo o mundo se usa a mesma coisa. Foi usado em São Francisco, foi usado no Japão. Foi distorcido um pouco na Espanha. Mas já deu um significado de representação cultural de um país. Foi a primeira Olimpíada em que decidiram não usar a bandeira. Não adianta usar a bandeira da Alemanha porque não é só a Olimpíada da Alemanha, é do mundo todo.

(Imagens da comunicação da Copa de 1972)

Falando nisso, esse nosso logo é verde e amarelo, as cores da bandeira.
Não precisaria ser verde e amarelo. Poderia ser laranja, preto… O país vai patrocinar, mas o país não vai ser o vencedor da Copa. Pode ser que seja, pode ser que não seja. Só com verde amarelo é fácil. Qualquer coisa faz verde e amarelo. Verde e amarelo é um dos elementos do sinal do Brasil, mas não é o sinal do Brasil.

Então você acha que não houve bons designers participando do concurso?
Não é o designer que tem que fazer. Ele tem que participar, inclusive como coordenador. Mas não é só designer que aparece. Aparece estilista de uniformes, aparece a publicidade. E o designer deveria coordenar essas coisas. Não é só fazer a marquinha. É um complexo muito maior. Uma coisa muito profissional que aqui no Brasil não tem essa cultura. Então ganham as agências de publicidade, que estão destruindo todas as marcas.

Eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre o que você chamou de falta de ética. A ADG (Associação dos Designers Gráficos do Brasil) reclamou que havia um combinado com a Fifa e que não foi respeitado.
É essa que é a falta de ética. Não respeitam os profissionais, o profissionalismo. E quem dirige os profissionais também não se manifesta. Isso deveria ter sido feito com mais responsabilidade, porque é importante.

Muito interessante o posicionamento de Alexandre Wollner quando fala que a representação visual do Brasil não pode se limitar apenas ao verde e amarelo. Ora, um país tão rico como o nosso, com uma cultura tão diversificada, uma miscigenação de jeitos, idiomas, hábitos e uma tremenda criatividade para a criação do novo, de novas formas de perceber as coisas ser resumido ao verde, amarelo e a taça do campeonato é realmente muito pouco, eu diria até que praticamente nada.

Não subestimando de forma alguma as pessoas que participaram do júri, mas esse processo de seleção onde não participam especialistas na área da comunicação, representa uma das situações mais críticas em que nós, profissionais capacitados para trabalhar, entender e desenvolver uma marca e projetos visuais dessa natureza passamos todos os dias. Muitas vezes acabamos lidando diretamente com clientes sem cultura alguma, sem percepção visual, sem entendimento da importância que o design exerce dentro das empresas e pior ainda, sem a mínima vontade de entender. Aí fica realmente complicado.